Contos de agosto
A escadaria
Ela estava distraída, tentando lembrar que dia era
hoje. Segundo seus cálculos, ainda era agosto... Ou será que já era setembro?
_Olá.
Ao ouvir uma voz pela
primeira vez em um bom tempo, ela se assustou, e acabou deixando o patim cair. Sem
nem mesmo fazer barulho, ele foi pulando de degrau em degrau até atingir o chão, onde se juntou ao outro. Dentro
daquele lugar, onde tudo era branco e parecia até mesmo irradiar uma luz
pálida, os patins vermelhos se destacavam bastante, mas não tanto quanto a voz
que quebrou o silêncio. Ela rapidamente se virou, para ver um homem vestido em
uma roupa escarlate como os patins, que era, no mínimo, esquisita. Ele se
sentou ao lado dela, em um dos muitos degraus daquela gigantesca escada
encaracolada.
_ Meu Deus, você me
assustou. Isso que você está usando é uma máscara, né?
Foi o que a mulher disse assim que viu seu rosto, ele
era cadavérico, sua pele era tão branca quanto o lugar que os cercava, com
exceção dos seus olhos, que eram cercados por negras elipses, por um
instante, ela pensou que ele precisava de uma boa noite de sono. Ao se aconchegar no degrau, ele balançou
positivamente a cabeça.
_ E por que você está
vestido assim? – Ela disparou, de prontidão. –
É um traje de circo.
Eu trabalhava em um.
Ele a surpreendeu mais
uma vez, agora ao demonstrar sua voz, que era quente e aconchegante. Ela
não sabia explicar o porquê, mas se sentia confortável na companhia dele.
Você sabe o que eu
fiz hoje? – Ela fez mais uma pergunta, já se levantando para esticar um pouco
as pernas. Ele a acompanhou com o olhar, e balançou a cabeça negativamente.
– Eu passei o dia todo
dando voltas, uma após a outra, por essas escadas, tentando lembrar o que eu
estou fazendo aqui. Ninguém parece querer conversar. Quer dizer, a maioria das
pessoas usa o elevador. Teve uma menina que sorriu pra mim.
_ Aham. Isso é normal. – Ele
respondeu e abriu um leve sorriso. – Você quer saber o que eu fiz hoje?
Ainda em pé, ela decidiu
que ouviria o que o homem tinha a dizer. Afinal, qualquer coisa seria melhor
que mais tempo sozinha e sem fazer nada naquele lugar. Ele
logo começou a falar:
Passei a manhã como
se fosse um pastor, guiando umas lulas gigantes. Elas têm uns tentáculos
gigantes. Muitos tentáculos. E eles brilham com muita delicadeza, em cores que
eu nem sei o nome. Não dá pra ler a mente do que você tá possuindo,
mas os corpos sempre revelam alguma coisa. Nesse caso, ele estava com
fome, e sentia falta de alguma coisa. Eu gosto de pensar que era da esposa. E aí
eu parti. Ali a pressão era o suficiente para esmagar uma pessoa até ela virar
uma mancha de sangue. Não ter um corpo me ajudou nisso.
Ele estava completamente
imerso no que dizia, tanto que demorou para perceber que ela havia sentado ao
lado dele novamente, e que olhava com certo fascínio para os gestos que ele
fazia enquanto falava. Rapidamente, ele continuou:
Depois eu me vi em
um cruzeiro, eu o observei um pouco e entrei em um homem solteiro, levei o
cara pro cassino e fiz 500 reais pra ele. Depois, fomos pro bar e
bebemos bastante. Ali, uma garota sorriu pra mim. Eu paguei
uma bebida pra ela, e um tempo depois a gente estava na minha
cabine. Eu me senti dirigindo um carro que não era meu, e saí, mas o
porre continuou com ele, eu fiquei só com o momento de clareza que a gente
tem depois de beber, sabe? Enfim, existem outros como eu por aí: Fantasmas,
roubando corpos por um dia, uma hora, ou um minuto. Nos anos oitenta,
eu tive um romance com alguém por dois meses. Geralmente eu escolhia os corpos
masculinos, e ela os femininos. Não quero falar sobre o término. Vamos apenas
dizer que eu sentia como se estivesse mentindo, e ela achava isso
ridículo. Talvez ambos estivéssemos certos, talvez ambos estivéssemos errados.
Quando tudo acabou, eu contei pra Deus, e ela riu de mim. Faz anos
que não vejo Deus. Às vezes me pergunto o que aconteceu com ela.
_ Isso quer dizer que
você acredita em Deus?
Pela primeira vez ela o
interrompeu, não de forma desrespeitosa, e sim com
uma quase cômica curiosidade.
_ Pra falar a
verdade, eu não sei. Eu sou só um agnóstico protestante com um passe pro
paraíso hindu.
_ Eu não sei o que você
quis dizer com tudo isso.
Já triste por saber o que tinha que
fazer, ele respirou fundo e finalmente foi em frente:
Não se preocupe. Às vezes
eu sou um psicopompo.
A mulher franziu a testa,
e, com seu já familiar ar curioso, perguntou:
_ O que é isso? Parece
loucura.
Antes de responder, ele
se levantou.
_ É alguém que te
ajuda a passar de um estado do ser para outro. E isso me lembra... Você
devia olhar para baixo da escada.
_ Ali estão meus patins. – Foi o que ela disse ao esticar a cabeça
além do corrimão. – E aqueles são meus pés.
Ele estava no degrau
acima ao dela agora, olhando para os patins, e, antes de responder,
colocou a mão no ombro dela, como quem consola alguém que sofre.
_ Os pés do seu corpo.
_ Oh.
Ela enfim se lembrou do
que havia acontecido. Ao notar que ele parecia preocupado, ela sorriu.
_ Cara, eu me sinto bem
besta. Obrigada.
Em um último esforço, ele
começou a falar:
_ Olhe, se você não for
fazer nada nesta noite, talvez nós pudéssemos...
Mas já era tarde demais,
ela o atravessa, subindo a escada, e, ao se virar para trás em uma tentativa de
acompanhá-la, ele percebe que ela não estava mais lá.
_ Oh, maldição...
Maldição.
Victor
Emanuel - 1º ELO
Mentes
Fragmentadas
Somadas,
eram 13 pessoas assassinadas por um maníaco desconhecido. Todas
as vítimas foram brutalmente mortas tendo seus cérebros fatiados, dando
ao maníaco esse símbolo. Desde maio, a polícia junto do
melhor detetive da cidade tentavam capturar o assassino. Já era agosto e eles
não tinham uma prova concreta que pudesse ajudar a encontrá-lo, pois ele nunca
era visto e nem deixava rastros. Era realmente uma tarefa muito difícil.
Jim,
o detetive responsável pelo caso trabalhava incessantemente, por
meses, tentando encontrar qualquer prova ou rastro que levasse
ao agressor, que conseguia fugir e se esconder sempre. Jim reconhecia que o
maníaco era alguém muito bem treinado em passar e não ser
reconhecido, fazendo com que nunca alguém encontrasse uma pista sobre
ele.
Até
que um dia, o detetive finalmente conseguiu encontrar um vestígio do homem que
ele tanto procurava. A pista foi encontrada dentro da casa de um policial,
o qual estava muito envolvido no caso também trabalhava duro nas buscas.
Infelizmente, o policial se tornou a 14° vítima
do maníaco, e como todas, teve seu cérebro fatiado. Jim sentiu pela morte do
amigo, o que o impulsionou para seguir com as buscas, agora sabendo
que alguém dentro da equipe estava traindo o detetive, atrasando
a todos e fazendo com que outras pessoas fossem
assassinadas.
O
detetive passou a confiar em menos pessoas da equipe, afastando algumas do
caso, deixando apenas os policiais que ele mais confiava. Juntos, eles seguiram
com as buscas e o detetive encontrava mais pistas sobre o maníaco, mas desta
vez, as pistas mais importantes ele guardava consigo, pois era a única pessoa
em que ele confiava totalmente.
Após um mês, Jim tinha mais de dez provas reunidas. Em uma noite, quando o
maníaco havia assassinado mais uma pessoa, Jim foi o primeiro a ir até o local
procurar por pistas. Na cena do crime, não havia muito. Além da vítima
morta com seu cérebro fatiado, existia também um sapato, que
para o espanto do detetive, ele notou que lhe pertencia.
Aos poucos, mais respostas eram tidas pelo detetive e ele as mantinham em
segredo. Sua sugestão, era que o assassino fatiava os cérebros de suas vítimas
para simbolizar a sua própria mente fragmentada em várias personalidades.
Durante o dia, o maníaco era uma “pessoa normal”, trabalhava, fazia
compras e tinha amigos. Durante a noite, ele era um maníaco que assassinava
pessoas. A cada nova prova, mais Jim se assustava. Cada dia mais o maníaco
apresentava fatos que tinham relação com a vida do detetive.
Finalmente, Jim conseguiu encontrar o culpado que tanto procurava. Mas a
resposta não lhe agradou. Ele concluiu que o maníaco era ele mesmo.
Durante a noite, sua personalidade mudava e
ele se tornava outra pessoa. Jim sabia que não conseguiria viver com o peso de
ter assassinado pessoas e de possuir uma mente tão fragmentada.
Naquele momento, ele resolveu que aquela situação não continuaria. Que
nele só poderia existir uma pessoa e nenhum outro pensamento. Foi por ele
deixada uma carta onde ele se despediu de tudo.
No dia seguinte, o detetive foi encontrado no
lugar em que mais gostava de estar: no Distrito Policial. Mas desta vez, morto,
sendo apenas o detetive Jim, encerrando enfim as buscas pelo
maníaco.
Maria Clara Lacerda de
Siqueira - 1ºELÔ
Conto de agosto
Enquanto
eu caminhava, vi alguns homens roubando uma bolsa de uma mulher que apenas
caminhava normalmente.
O que esses caras estão fazendo...? Que idiotas. Suspirei
virando à direita em um beco ao meu lado. Soltei minhas sacolas
deixando-as no chão. Encostei na parede deixando que meu corpo caísse
lentamente, fundindo-se totalmente com ela.
Flutuei
por alguns metros ainda dentro dos tijolos até começar a ouvir os de
pessoas.
- Alguém
pegue esse ladrão! – um homem gritou.
- Alguém
chame a polícia! – outro homem gritou.
- Finalmente
teremos grana pra comprar o que queremos! – ouvi uma fala suspeita, o
que me fez sair da parede de tijolos pela qual eu flutuava e me transportar
rapidamente para a sombra de um poste.
Ainda bem que hoje o Sol está de matar. Pensei.
Coloquei
a mão para fora da parede puxando a bolsa da mão do ladrão.
- Hã?!
– ele exclamou. – Que-
Coloquei
a cabeça para fora do poste, deixando apenas meu braço e rosto a
mostra.
A
expressão de horror do homem me divertiu levemente, mesmo que não fosse uma expressão
engraçada. Ela simplesmente me deixou satisfeito com a boa ação que eu
fiz.
O homem
correu mais rápido do que eu já vi uma pessoa correr. Gargalhei e saí
totalmente dos tijolos, enquanto limpava a poeira de minha roupa.
-
Assustando crianças de novo, Lúcio? – ouvi uma voz conhecida, o que fez meu
sorriso se desmanchar enquanto eu revirava os olhos. – Não vai nem olhar
para mim?
- O que
você quer, Libélula? – perguntei virando-me para a garota loira carregando
seu cajado de sempre. – Eu já lidei com a situação, então pode ir
voando. – Eu disse debochando.
- Eu vim
cumprimentar meu melhor amigo. – Ela sorriu enquanto se aproximava de mim com
os braços abertos.
- Eu
já disse que você pode ir até as suas pequenas flores e esquentá-las com todo
seu amor escaldante – falei entediado tentando convencê-la
a me deixar em paz. – E quando eu disse que era seu amigo? - perguntei
encostando meu dedo indicador em sua testa, impedindo-a de me tocar.
- Desde
que você assinou esse contrato aqui, ó! – Libélula puxou de sua bolsa de
margaridas um papel que continha uma assinatura que claramente não era
minha.
- Você
inventou isso, não é?
- Lógico
que não! – ela disse ofendida. – Eu jamais faria isso!
- O casal
aí já acabou?! – escutei um homem gritar e vi um boomerang cheio de espinhos
voar em direção a Libélula.
Antes que
ele acertasse a loira, segurei fortemente sua cintura e a puxei parede
adentro.
- Corre.
– falei puxando a garota pelo pulso enquanto ouvia as paredes atrás de mim se
partirem e a risada do homem cada vez mais alta. – Droga!
- Para
que correr? – Senti o pulso dela lentamente escorregar da minha mão, o que me
fez puxar todo o ar que consegui e me forçar a parar de correr.
Ela não
disse mais nada e só ouvi suas tentativas de respirar por dentro do
concreto.
- Enlouqueceu?!
– gritei pegando novamente sua mão deixando-a voltar a respirar. –
Quer morrer?! – gritei novamente. – Droga! – disse pulando para fora da parede
quando aquele homem, que estava nos perseguindo, finalmente nos alcançou e
destruiu a parede que estávamos. -Ei! Recomponha-se! Você precisa me ajudar
aqui. – falei tentando fazer Libélula voltar a sua consciência.
Ela nem
mesmo me olhava. Droga, droga, droga, droga...
Entrei
novamente na sombra de um poste e comecei a correr pelo
concreto escaldante do chão. Dei um pulo dando um soco no rosto
do homem, que nem mesmo deixou seu rosto vermelho.
Esse Sol está seriamente me prejudicando. Meus poderes não serão
suficientes para derrotá-lo.
O homem
riu alto de minha situação deplorável.
Subitamente
senti o calor nas minhas costas diminuir drasticamente.
Virei-me
e vi Libélula com seu cajado de ouro sugando todo o calor do Sol, deixando
levemente frio. Depois ela usou suas mãos para mover a grande estrela para
longe e trazer de volta a Lua.
Senti
minha força aumentar drasticamente, o que me fez realmente me sentir
bem.
Porém
durante esse momento de distração de minha parte, a homem jogou um de seus
boomerangs, usando-o para me prender na parede.
- Você
achou mesmo que eu iria ficar parado esperando você virar o herói aqui e me
derrotar?! – ele gargalhou. – Boa sorte em tentar se livrar disso aí. Esse
boomerang solta um veneno lentamente em sua presa enquanto ele estiver presa a
ele.
Sorri
sarcástico logo deixando meu corpo derreter e me tornando uma sombra que
podia caminhar mesmo pelos lugares à luz da Lua.
Sabe
aquela sombra que você forma quando está parado perto de uma fonte de luz? Pois
é... eu sou aquela sombra. Corri até o homem nessa forma e puxei seu
pé começando a arrastá-lo até a represa que havia por perto. Usei minha força
para jogá-lo na água, porém sua roupa prendeu em um gancho e todos seus
boomerangs caíram até afundarem na água.
- Ei! Ei!
Ei! – ele gritou. – Por favor! Piedade! Por favor! – o homem balançava as
pernas desesperadamente enquanto eu saia das sombras e me tornava humano
novamente.
Vi um
vulto passando voando por cima de mim, logo vi Libélula voando e tirando o
homem do gancho, depois colocando-o em pé no chão. Porém antes que ele pudesse
fazer qualquer coisa, as sirenes da polícia tornaram-se
audíveis, portanto seus carros também.
O Homem
foi preso e eu e Libélula fomos cumprimentados calorosamente pelos
polícias.
-
Obrigada pela ajuda naquela hora. – falei coçando a nuca. Vi a Libélula sorrir
abertamente e me abraçar calorosamente.
- Eu te
amo, meu e-boy.
Laura Mayumi de Souza Tanno – 1º ADM
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